As Perturbações de Ansiedade e a Síndrome de Hipermobilidade Articular

Escrever sobre esse tema é de vital importância, a possibilidade de profissionais do movimento estar tratando de pessoas hipermoveis sem saber lidar com essa doença multisistemica é enorme. Aquela dificuldade em concentrar, a dificuldade de coordenar movimentos, muitas vezes o esquecimento do próprio exercício fazem parte da vida desses pacientes.

Espero conseguir conscientizar aos colegas da área de saúde que hipermobidade não é raro, que precisamos mudar o nossa maneira de tratar essas pessoas pelo seu bem físico e emocional. Espero não mais acharem que sou louco, invejoso quando tento dizer que estão conduzindo de maneira equivocada estes pacientes.

Um estudo de revisão feito na Universidade de Lisboa na Faculdade de Medicina será nosso guia e referencia para entendermos o que tem haver a hipermobilidade com problemas cognitivos e ansiedade.

Nos últimos anos tem surgido evidência de que existe uma associação entre as perturbações de ansiedade e a síndrome de hipermobilidade articular, patologias frequentemente subdiagnosticadas e com marcado impacto negativo na qualidade de vida dos doentes. Este trabalho tem como objetivo reunir a evidência existente acerca da relação entre estas duas entidades, bem como sobre os mecanismos que têm sido propostos
para a explicar.

As perturbações de ansiedade estão entre os diagnósticos mais frequentes em Psiquiatria. A síndrome da hipermobilidade articular é a mais frequente das doenças hereditárias do tecido conjuntivo. Em comum, entre outras características, têm o facto de afectarem negativamente a qualidade de vida dos doentes, e de serem frequentemente subdiagnosticadas. Há menos de três décadas começou a surgir evidência de que estas duas entidades clínicas (ansiedade e hipermobilidade) estariam relacionadas – evidência que tem vindo a crescer e se tornou muito relevante.

A evidência clínica e de neuroimagem disponível parece confirmar a existência de uma associação entre as perturbações de ansiedade e a síndrome de hipermobilidade articular. Alguns elementos comuns a estas patologias, que parecem mediar a sua associação, são a disautonomia, a interocepção e as alterações da matriz extra-celular.Ainda não foi possível identificar uma alteração genética comum às perturbações ansiosas e
à síndrome de hipermobilidade articular, embora as duas apresentem uma importante componente de hereditariedade.

Toda a população é susceptível de sentir ansiedade. Esta sensação difusa e
desagradável de apreensão, muitas vezes acompanhada de sintomas autonómicos (como sudorese, palpitações, dispneia) é um sinal de alerta, que avisa de um perigo eminente e leva a tomar medidas para lidar com uma ameaça. Nesse aspecto, a ansiedade distingue-se do medo (de algo), que consiste numa resposta a uma ameaça conhecida, externa, definida,
enquanto a primeira surge perante ameaças desconhecidas, internas, vagas ou conflituosas. Ambos são componentes essenciais das perturbações de ansiedade.

A ansiedade pode ser interpretada como uma reacção normal e adaptativa que,perante ameaças de dor, frustração, necessidades corporais, separação de pessoas próximas, entre outras, nos leva a tomar as medidas necessárias para prevenir a ameaça ou minimizar as suas consequências.

Há dois componentes principais na experiência de ansiedade: a consciência, por um lado, dass sensações e sintomas fisiológicos, somáticos (como sudorese ou palpitações) e, por outro, de sintomas psíquicos, como a sensação de “nervosismo” ou medo. Além dos seus efeitos motores e viscerais, a ansiedade afecta ainda o pensamento, a percepção e a
aprendizagem. A distorção da percepção, não só do tempo e espaço mas também de pessoas e significados de eventos, pode interferir com a aprendizagem ao diminuir a concentração, interferir com a memória e com a capacidade de fazer associações. Outro ponto importante é a seletividade da atenção: indivíduos ansiosos tendem a seleccionar determinados elementos do seu ambiente e negligenciar outros, na tentativa de mostrar que têm razão em sentir-se assustados. Ao justificarem falsamente os seus medos, aumentam a sua ansiedade através desta resposta selectiva e entram num ciclo vicioso de ansiedade, percepção distorcida e aumento da ansiedade. Se, inversamente, a pessoa se tranquilizar falsamente
através de pensamento selectivo a ansiedade, mesmo que apropriada, pode ser reduzida e pode falhar a adopção de precauções necessárias perante a ameaça.

A ansiedade tem sido ainda muito investigada do ponto de vista biológico. O sistema nervoso autónomo (SNA) desempenha um papel importante, na medida em que a sua estimulação causa muitos dos sintomas físicos da ansiedade, tanto cardiovasculares como respiratórios, musculares e gastrointestinais. Em alguns doentes com perturbações de ansiedade, em especial com perturbação de pânico, o SNA apresenta um tónus simpático
aumentado, adaptando-se de forma lenta a estímulos repetidos e podendo responder de forma excessiva a estímulos moderados

No que toca à neuroanatomia das perturbações de ansiedade, os estudos de
neuroimagem têm sido de enorme valor. Há evidência de que estruturas límbicas e subcorticais, em particular a amígdala e o córtex insular, intervêm na vigilância automática e detecção de sinais de ameaça e que sua actividade se encontra aumentada nas perturbações ansiosas, levando à detecção excessiva ou facilitada desses sinais. Também diversas regiões corticais estão implicadas no controlo da atenção e dos mecanismos
reguladores de emoção; a disfunção destas áreas está relacionada com a dificuldade em determinar se um estímulo é ou não seguro, e em direccionar ou não a atenção, de forma adaptativa, para a ameaça.

Vários estudos genéticos têm sido feitos nesta área, evidenciando que há um
componente genético que determina, em parte, o desenvolvimento de perturbações de ansiedade e que a hereditariedade é reconhecida como um factor predisponente. Embora se tenha verificado a importante contribuição da genética para a vulnerabilidade e predisposição para patologia ansiosa, sabe-se que os eventos traumáticos experienciados ao longo da vida, em conjunto com o stress, são também muito importantes do ponto de vista etiológico; assim, a ansiedade é um exemplo importante de como fatores genéticos e ambientais se relacionam na génese de patologia psiquiátrica.

Qual é a associação entre a hipermobiliade e as perturbações de ansiedade?

A associação entre a SHA e ansiedade foi descrita pela primeira vez por Antoni Bulbena e os seus colaboradores em 1988.

Mais tarde, o mesmo grupo desenvolveu o estudo “inverso”, ou seja, investigaram a prevalência de hipermobilidade em doentes com perturbações de ansiedade. Incluíram na amostra 99 indivíduos com perturbação de pânico e/ou fobia recém-diagnosticados e 163 controlos (99 de uma clínica psiquiátrica e 64 doentes médicos). Neste estudo, os indivíduos com estas perturbações de ansiedade tinham uma probabilidade 16 vezes superior de ter síndrome de hipermobilidade articular

Desde então, vários estudos têm vindo a reforçar a validade desta associação. Uma meta-análise recente [21], incuindo 3956 participantes (1006 indivíduos com SHA e 2951 controlos sem a síndrome) de 14 publicações analisou a prevalência e gravidade de perturbações de ansiedade em pessoas com SHA. Relataram uma probabilidade quatro
vezes superior de sofrer de ansiedade em indivíduos com SHA comparativamente com os controlos, e ainda que a gravidade dos sintomas de ansiedade era superior nesse grupo.

Perante a forte evidência de que existe de fato uma associação entre a síndrome de hipermobilidade articular e as perturbações de ansiedade, particularmente a perturbação de pânico, agorafobia e fobia específica, várias hipóteses têm sido colocadas na tentativa de explicar o porquê desta relação, será a estas hipóteses que iremos ver nos próximos posts.

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